Beija-flores não formam casais permanentes. Ao cortejar uma fêmea, o macho geralmente faz exibição da sua plumagem ou língua, numa espécie de dança cheia de volteios. Esses rituais variam um pouco de uma espécie para outra e havendo aceitação por parte da fêmea, o casal copula. Passando esse período, o macho segue sua vida e fica por conta da fêmea a construção do ninho, incubação dos ovos e alimentação da prole. 

 

Reprodução

 

A fêmea de um beija-flor poderá construir seu ninho em locais inusitados, tais como vasos pendurados em varandas, luminárias externas e até mesmo dentro de casa em um cômodo pouco usado. O material usado parece sempre conter teias de aranha, que ajuda na fixação do ninho. Outros materiais como fibras diversas, algodão e paina completam a forração. Por fora, usam cascas de plantas e líquens, provavelmente tendo a função de camuflagem. O formato básico do ninho varia de espécie para espécie, uns em forma de taça, outros parecendo um aglomerado disforme de folhas pequenos galhos, sempre muito discretos. O maior beija-flor que temos por aqui, a espécie Eupetomena macroura, que pode medir até 19 cm de comprimento, constrói um ninho com tamanho aproximado de uma xícara de café pequena. Ramos de bambu e a parte inferior de folhas de palmeiras também são locais muito procurados para pendurar ninhos.

Hylocharis chrysura em ritual de acasalamento. Flor da Heliconia psittacorum (Heliconiaceae).

Phaethornis pretrei e o ninho que foi construído em um poço abandonado, pendente em uma raiz a 1 m abaixo da abertura do poço. A fêmea entrava por uma pequena abertura da tampa e a 5 metros abaixo havia água. Quando os filhotes tivessem que abandonar o ninho em seu voo inaugural, não poderia haver erro, senão cairiam na água. Espero que tenha dado certo para eles.

Phaethornis eurynome pousado num ramo da Sanchezia nobilis (Acanthaceae), cujas flores ainda não desabrocharam. O ninho da espécie está construído na extremidade da folha de uma palmeira a apenas a 1 m do solo e contém um único filhote.

Uma fêmea de Glaucis dohrnii em seu ninho, em plena mata. O ninho está construído sob uma folha de bromélia. À direita, os dois ovos nesse mesmo ninho. Esta talvez seja a espécie de beija-flor mais ameaçado do Brasil. Vive apenas numa pequena área de Mata Atlântica entre a Bahia e o Espírito Santo. Se a degradação desse habitat não for efetivamente detida, esse beija-flor será apenas mais uma lembrança do que existia ali.

Uma fêmea da espécie Chrysolampis mosquitus e seu ninho em plena Caatinga do interior da Bahia. Foi construído em um arbusto a 1m do solo.

Amazilia fimbriata e o ninho da espécie com dois filhotes, construído entre os ramos de um pé de Maracujá (trepadeira frutífera), de uma plantação em zona de Mata Atlântica. Ao fundo, as flores da Petrea volubilis (Verbenaceae).

A postura é sempre de dois ovos e o período de incubação é em média de 15 dias. Os filhotes deixam o ninho entre 20 e 30 dias depois da eclosão dos ovos. Talvez pelo fato de sempre termos muitos beija-flores em nosso quintal, eles nunca fizeram ninhos aqui. O motivo mais provável seria a competitividade entre eles. A proximidade dos humanos não os perturba muito, pois já observei ninhos com filhotes a apenas 1 m de uma passagem de pedestres. Os primeiros filhotes costumam aparecer no jardim a partir de meados de setembro ou outubro. Sinal de que os ninhos estão nas vizinhanças.

Eupetomena macroura e duas versões de “camuflagem” usadas na confecção do ninho. O primeiro estava em uma pequena árvore na calçada de uma movimentada avenida, a 2 m do solo. Notam-se os bicos dos filhotes apontados para cima. Eles ficam imóveis para não serem percebidos por possíveis predadores. Quando a mãe se aproxima, as penugens que recobrem suas costas detectam as vibrações no ar provocadas pelas batidas das asas e então eles abrem os bicos, sem alarde. 

O segundo ninho foi construído nas tubulações de eletricidade das instalações de uma torre de telecomunicações, local quase sem movimento de pessoas. Nesse caso, a fêmea usou além dos liquens encontrados em cascas de árvores, pedaços ressecados da tinta laranja que é usada na pintura das instalações.

Anthracotorax nigricolis – filhote em seu ninho.

Fêmea de Glaucis hirsutus e seu filhote.

Uma fêmea de Aphantochroa cirrochloris e seu filhote.

Dois ninhos da espécie Chlorostilbon lucidus. À esquerda, uma fêmea chocando seus ovos. À direita, dois filhotes quase em tempo de abandonarem o ninho. Nesse estágio, geralmente dois filhotes não cabem acomodados no pequeno espaço e então, um ou outro sempre estará pousado nas bordas.

Se falta romantismo... sobra encanto!