Possivelmente, na contramão da adaptação, acho oportuno comentar que, por volta do ano de 1987, tive em meu jardim um exemplar de Glaucis hirsutus e, depois disso, nunca mais vi outro por aqui, embora os tenha procurado pela região. Talvez já fossem muito raros naquela época ou aquele era apenas um exemplar vagante. Jamais saberei!

Nos últimos anos, um número crescente de aves, que só eram vistas nas matas, estão frequentando nossas praças e jardins. Alguns deles são periquitos, pica-paus, corujas, gaviões e urutaus. Na minha região, além desses, observamos ao menos duas espécies de beija-flores (Eupetomena macroura e Thalurania glaucopis). A causa mais provável seria a degradação do seu habitat original, provavelmente, estão procurando se adaptar ao ambiente urbano.

 

Nos mais de 30 anos em que observamos os beija-flores, não notamos declínio na população das espécies aqui normalmente encontradas. Porém, temos que nos lembrar de que as espécies que atualmente temos por aqui são as sobreviventes do desmatamento ocorrido no passado. Estamos convivendo com as que conseguiram se adaptar. Eupetomena macroura, um típico beija-flor dos Cerrados e que até o ano de 1990 não era comum na minha região, apresentou um aumento expressivo na população, sinal de que se adaptou bem ao ambiente urbano. Esse beija-flor é muito agressivo e está sempre procurando afastar os outros de sua área de alimentação. Para outras espécies menos competitivas, isso pode estar sendo desastroso.

Thalurania glaucopis, macho à esquerda e fêmea à direita. Esta está pousada em um ramo florido de Malvaviscus drummondii (Malvaceae). Essa espécie de beija-flor é típica de áreas litorâneas da Mata Atlântica, mas desde o ano de 2005 eu a avisto regularmente no nosso jardim.

Eupetomena macroura e a flor silvestre da Barjonia cymosa (Asclepiadaceae) em primeiro plano. A planta é nativa nas regiões de Cerrados. Essa espécie de beija-flor prospera muito bem nas cidades.

Exemplar de Glaucis hirsutus fotografado em Rolândia-PR em 1987, no jardim do autor. Foi a única vez que a espécie foi avistada na localidade e região.  

Processo de seleção

 

Voltando no tempo, Ruschi relata em seu livro Aves do Brasil (Vol. V, p. 239) a captura e anilhamento de exemplares de Chrysolampis mosquitus para estudo de rotas de migração, feitos aqui em Rolândia-PR, no ano de 1957. Baseado nesta afirmação, esta é uma espécie que deixou de frequentar nossa região, pois não há mais relatos da presença desses beija-flores no Paraná. A espécie ainda sobrevive em regiões de Cerrados no Brasil Central e nas áreas de caatinga do Nordeste. A foto à esquerda é de um macho dessa bela espécie e a da direita é da fêmea pousada num ramo de Dioclea wilsonii (Faboideae). Imagens feitas em Boa Nova-BA em 2015.

E porque o mundo muda, a vida deve mudar.

Muda para perto ou para longe do nosso olhar.