Cada espécie de ave voadora, inclusive beija-flores, bate as asas em um ritmo mais ou menos constante. Podem variar a taxa de batimento para escapar de um predador, fazer um voo de corte (namoro) ou para manobras de pouso ou decolagem, mas apenas por curtos períodos de tempo.

O voo do beija-flor que mais nos encanta é o voo saltitante e o pairar no ar, quando se posiciona em frente às flores para se alimentar. Impossível não associar os seus movimentos aos de uma bailarina no palco. Nessa situação, se pudéssemos observar o beija-flor em câmera lenta, notaríamos que a cada batida das asas, a ave oscila para frente e para trás. Um beija-flor batendo as asas 30 vezes por segundo oscila mais do que outro que as bate 80 vezes por segundo. A velocidade maior de batimentos estabiliza a ave no ar e lhe permite movimentos mais precisos para introduzir o seu bico nas flores. É como comparar um motor de baixa rotação a outro de alta. O primeiro trepida muito mais.

Mestres do vôo

 

Pernas? Para que as quero?

É comum as pessoas acreditarem que o beija-flor é o mais rápido dos pássaros. Que o seu voo é tão rápido que mal se enxerga o que passou por ali. Costuma ser em parte verdade apenas porque geralmente são aves muito pequenas.

O Falcão-peregrino (Falco peregrinus) é a ave mais rápida do mundo e atinge incríveis 320 km/h em seu voo de ataque. O mais rápido dos beija-flores o Chifre-de-ouro (Heliactin bilophus) atinge no máximo 70 km/h, uma velocidade bem inferior quando comparados. Até mesmo os pombos são mais rápidos. Patagona gigas, também chamado de Beija-flor-gigante, que vive nas regiões Andinas, bate suas asas 10 vezes por segundo contra as 14 vezes por segundo que o Sabiá-do-campo (Mimus saturninus) o faz. Comparando-se o tamanho (comprimento) e peso de cada um deles, temos o beija-flor medindo 22 cm/ 20 g e o Sabiá-do-campo 26 cm/ 73 g. O último é pouco maior, mas três vezes mais pesado. Então, o beija-flor pode se dar ao luxo de bater as asas mais devagar, pois sendo bem mais leve, consegue se sustentar no ar mais facilmente.

Phaethornis pretrei (leucístico) e as flores da Tacinga palmadora (Cactaceae), uma espécie de cacto bastante comum na Caatinga. Por causa dos espinhos a ave paira quase de cabeça para baixo, uma manobra quase impossível para qualque outro pássaro, mas para esse beija-flor é apenas rotina

Adicionam-se ao tipo particular de voo, as habilidades conseguidas ao longo da evolução e que lhes permitem mudar as posições das asas de forma independente, possibilitando movimentos incríveis não permitidas para a maioria dos outros pássaros. Assim, uma ave tão pequena dentro da área aparentemente limitada de um espaço florido, voando para qualquer lado que ela queira, cria a ilusão de ser muito mais rápida que as outras aves.

Beija-flores não caminham sobre seus diminutos pés. Estes só lhes servem para se empoleirar e coçar a pele. Quando querem mudar de posição por alguns centímetros que seja, eles voam por esta pequena distância. Isso tem um preço e o alto consumo energético é o que eles pagam. Daí a necessidade de uma dieta riquíssima em carboidratos (açúcares). Para obtê-los na natureza, é necessário consumir muito néctar. Capazes de um incrível controle do voo, estas pequenas aves acessam um grande número de flores todos os dias, obtém o precioso alimento e em troca, fazem a polinização.

Amazilia lactea e as flores da Salvia farinacea (Lamiaceae). Nota-se pela posição das asas que esta ave está voando para um dos lados. Esta é uma das manobras que provavelmente só os beija-flores conseguem executar. A planta é nativa do Arizona - EUA e muito usada em jardinagem.

Leucochloris albicollis e a flor da Ruellia colorata (Acanthaceae). Nota-se que a ave paira sobre a flor e movimenta as asas de forma independente uma da outra. O beija-flor está fazendo um ajuste preciso da sua posição.

Observem com atenção, Anthracotorax nigricolis (macho) aproximando-se das flores de Megaskepasma erythrochlamys (Acanthaceae). As duas asas estão em posições diferentes uma da outra. Este beija-flor também as movia de forma independente para ajustar sua posição em relação às flores.

Heliomaster squamosus (macho), voa  para baixo e usa sua cauda para estabilizar a parada, ficando ao nível das flores da Stachytarpheta mutabilis (Verbenaceae).

Phaethornis pretrei  faz uma manobra circular para acessar as flores da Alpinia purpurata rosea (Zingiberaceae). A cauda desse beija-flor, sem dúvida lhe permite fazer manobras mais complicadas quando comparado aos beija-flores de cauda mais curta.

Dentro de matas mais fechadas, uma cauda longa permite um maior controle para se desviar de obstáculos e também para acessar flores em posições mais difíceis de alcançar.  Na foto, Phaethornis pretrei e as flores da Palicourea marcgravii (Rubiaceae), planta muito tóxica para mamíferos, especialmente os herbívoros. 

Para uma ave que não usa os pés para caminhar, cair entre os ramos da Orthophytum albopictum (Bromeliaceae) seria morte certa.  A maestria de pairar sobre estas plantas, sem esbarrar e cair, é o que permite ao minúsculo Phaethornis ruber  alimentar-se nestes ambientes tão "inóspitos". Caso ele caia, ficará preso entre as folhas espinhosas e não conseguiria alçar voo.

As asas deste Phaethornis pretrei estão em posição  invertida. Essa incrível maleabilidade e a capacidade de movê-las de forma independente uma da outra, é a razão do seu sucesso em executar movimentos erráticos. As flores são da Spigelia pulchella (Loganiaceae), planta nativa nas áreas de Campos Rupestres da Chapada Diamantina, na Bahia.

A fêmea de Heliomaster squamosus, atenta ao fotógrafo, faz um movimento de desvio do seu alvo, as flores da Salvia guaranítica (Lamiaceae). Esta planta cresce nativa em muitos lugares do Sudeste do Brasil.

Leucochloris albicollis faz voos de vaivém verticalmente, para introduzir seu bico nas flores de Aloe barbadensis (Asphodelaceae).

A planta também conhecida popularmente por "babosa" é de origem Africana e cultivada a séculos pelas suas propriedades medicinais.

O voo de Calliphlox amethystina é muito diferente de todos os outros beija-flores. Enquanto a maioria deles bate as asas em média 30/s, esta espécie chega a fazê-lo até 80/s. Por isso seu voo é muito mais suave nos movimentos, assemelhando-se ao de alguns insetos. Não é raro que este beija-flor seja confundido com eles, em particular com as abelhas "Mamangavas".  À esquerda um macho nas flores de Lippia rhodocnemis (Verbenaceae), planta de Cerrados. Acima, uma fêmea e as flores de Melocactus bahiensis (Cactaceae), planta das regiões do Agreste baiano.

Algumas imagens como essa de Leucochloris albicollis, podem criar sugestões equivocadas de que a ave esteja planando no ar ou seja, voando sem bater as asas como urubus ou gaivotas fazem frequentemente. Beija-flores não têm essa capacidade de voo e precisam bater as asas continuamente para se manter-se no ar. Quanto menor a ave, mais rápidos devem ser os batimentos das asas e isso é válido

para qualquer espécie de ave,

incluindo os beija-flores.

Flor de Stifftia grazzielae (Asteraceae)

Esse exemplar jovem de Hylocharis chrysura apesar da pouca idade, já consegue executar uma complicada manobra de voo e alcançar verticalmente as flores da Salvia involucrata (Lamiaceae).

Heliomaster squamosus (macho) faz uma pequena manobra voando de ré. Observem que as asas parecem "empurrar" o ar a sua frente. Os beija-flores costumam fazer movimentos de vaivém nas flores. Quando se afastam um pouco das fontes de alimento eles o fazem para inspecionar os arredores à procura de algum intruso. Estão sempre atentos aos possíveis competidores. As flores são da Justicia carnea (Acanthaceae), planta nativa da Mata Atlântica.