Beija-flores tem boa memória?

O beija-flor Eupetomena macroura e uma flor da Carica papaya (Caricaceae) planta frutífera popularmente conhecida por “mamoeiro”.

Beija-flor Anthracotorax nigricolis e as flores da Cuspidaria convoluta (Bignoniaceae), também conhecida como Cipó-rosa, trepadeira aparentada ao Ipê-roxo e que produz intensas floradas. Será que a quantidade de flores aparentemente iguais se constitui em desafio à memória de um beija-flor?  Tudo indica que não.

Lophornis magnificus (macho) em um ramo florido da Calliandra surinamensis (Fabaceae), arbusto de médio porte e que produz intensas floradas. Para nós as flores são muito parecidas, mas os beija-flores as distinguem bem umas das outras.

      O cérebro de um beija-flor corresponde a aproximadamente 4,2% do seu peso corporal, a maior proporção no reino das aves. Eles também têm a maior formação do hipocampo no cérebro comparado a qualquer ave e que sabemos estar associado com aprendizagem espacial, presumivelmente porque eles visitam os mesmos conjuntos de flores  e devem se lembrar onde e quando eles mais recentemente estiveram.  A grande necessidade de néctar faz com que sejam necessárias muitas

visitas às flores.

 Pode parecer natural lembrar-se de uma única flor em determinado local, mas considere lembrar-se de cada flor numa árvore toda florida. Há indícios que eles conseguem fazer isso.   Estima-se que em um dia normal, uma dessas aves precisa visitar de 1500 a 3000 vezes as flores para conseguir a quantidade de néctar de que necessita. Voltar repetidamente às mesmas flores das quais já libou o néctar seria muito desperdício de energia. As flores necessitam de tempo para repor o estoque de néctar e os beija-flores

parecem saber disso.

Phaethornis eurynome e a flor da bromélia Canistropsis billbergioides (Bromeliaceae). Esse beija-flor parecia saber quanto tempo essa bromélia levaria para repor o estoque de néctar. Veja no texto.

Phaethornis eurynome e as flores da bromélia Vriesea saundersii (Bromeliaceae).

     Na natureza, a distribuição dos recursos florais nunca está concentrada em um local único. Sazonalmente as plantas do campo ou das margens de determinado rio, florescem por determinados tempos e a memorização desses pontos de alimentação é vital para a sobrevivência dessas aves. Dentro das matas ocorre o mesmo e os beija-flores que aí vivem, desenvolvem estratégias de alimentação. Seguem caminhos predefinidos, como se tivessem um mapa e visitam os pontos de alimentação regularmente. Em certa ocasião, eu tirava fotos de um exemplar de Phaethornis eurynome dentro da mata. Localizei uma bromélia florida e aí fiz minha espera de câmera em punho. O beija-flor apareceu, libou néctar de algumas das flores e em seguida desapareceu. Passado aproximadamente 15 minutos retornou e fez exatamente o mesmo que na volta anterior. O ciclo se repetiu mais 3 ou 4 vezes antes de anoitecer. No dia seguinte voltei ao lugar e acompanhei mais 3 desses ciclos. Afastei-me desse local para explorar outras oportunidades e encontrei um belo arbusto de outra espécie de bromélia, a Vriesea saundersii, onde adotei estratégia igual. O mesmo beija-flor apareceu e fez tudo novamente.

     Em todos esses ciclos de visita, houve variações nos intervalos de tempo, mas não eram maiores de que 3 ou 4 minutos. Isso me sugeriu que esse beija-flor além de conhecer os pontos de alimentação, “regulava” os intervalos de visita a cada um. Talvez estivesse dando um tempo para que as flores regenerassem o estoque de néctar.

Lembro da cor, do rosto e até do gosto.

Só não me lembro de não lembrar.