A língua da ave pode se projetar cerca de duas vezes o comprimento do bico, proporcionando uma facilidade para se ajustar às diversas formas de flores, em especial às que possuem corolas mais alongadas. Assim é que a evolução funciona e talvez daqui a alguns milhares de anos haja novas formas tanto de bicos como de flores. Glaucis hirsutus à direita, exibe apenas uma parte da sua lingua. Sabemos que ele pode fazer muito mais que isso ou seja, até duas vezes o tamanho do seu bico. É uma ferramenta poderosa e que permite várias "adaptações" conforme as necessidades. As flores são da Stromanthe sanguinea - Marantaceae.

Entre tantos casamentos arranjados um beijo é roubado!

Os bicos

 

            Compridos, médios, curtos, retos, curvados, os bicos dos beija-flores não passam despercebidos quando os observamos de perto. O formato do bico de certos beija-flores parece acompanhar o comprimento e a curvatura da corola de algumas flores e isso não é coincidência. Aliados ao estilo ímpar de voo dessas aves, os bicos são ferramentas admiráveis para a obtenção do alimento, seja ele néctar ou insetos. Em alguns casos, o bico deixa muito evidente a coevolução existente entre flores e beija-flores. Isso não quer dizer que um beija-flor de bico curto não possa obter alimento em uma flor de corola mais longa ou vice versa. Mas ele se alimentará mais eficientemente se o fizer na “flor certa”, o que determina o sucesso na competição pelas fontes de alimento. Porém, se as “flores certas” estiverem escassas e as “flores erradas” abundam, o beija-flor procura se adaptar.

 

Na foto, o beija-flor Glaucis hirsutus pousa ao lado da flor da

Ruellia colorata (Acanthaceae), originária do México. O bico da ave e o formato da corola dessa flor, parecem compartilhar uma semelhança de design.

 Anthracotorax nigricolis (macho) possui bico médio e levemente encurvado como a grande maioria dos beija-flores. Esta espécie é encontrada em toda a América do Sul e alimenta-se em muitas formas de flores. Talvez o formato do seu bico também

seja responsável por essa adaptação tão ampla. As flores são do mamoeiro (Carica papaya - Caricaceae). A planta é originária da América Central.

Lophornis magnificus (macho), um beija-flor muito pequeno pesando 3 g, possui bico curto. Isso pode dificultar ele se alimentar eficientemente em flores grandes e por isso escolhe as menores. Frequentemente esta espécie é vista em flores típicas de insetos. Na foto, a flor de Rubus rosifolius (Rosaceae), um arbusto que produz pequenos frutos vermelhos conhecidos como framboesas.

Mas, se o tamanho inteiro da ave não parece adequado à flor, o que se diria do bico. Estas cenas acontecem muito nos jardins. Plantas exóticas estão lado a lado com espécies nativas, a gosto do jardineiro. O beija-flor Lophornis magnificus (macho) é uma ave curiosa e inspeciona a flor da Thunbergia erecta (Acanthaceae), de origem Africana. Talvez o beija-flor esteja apenas procurando minúsculos insetos para comer. É preciso observar o comportamento deles para tirar conclusões.

Esta fêmea de Calliphlox amethystina encontra a solução para compensar o tamanho do bico e se adaptar ao tamanho da flor da Thunbergia erecta. Ela perfura a base, e introduz o bico exatamente no reservatório de néctar. Muitas vezes, já existem perfurações feitas por insetos e o beija-flor as usa.

São oportunistas quando

lhes convém.

 

A flor da Heliconia rostrata (Heliconiaceae) parece ter uma clara semelhança com a forma do robusto bico do beija-flor Glaucis hirsutus e não é a toa que frequentemente esse é visto se alimentando nela. As Heliconias produzem flores que estão entre as preferidas dos beija-flores de bicos curvo.

 

Phaethornis pretrei é outro beija-flor de bico longo e curvo. A flor de Centropogum cornutus (Campanulaceae) parece se ajustar como uma luva a ele. Os beija-flores do gênero Phaethornis percorrem rotas habituais dentro das matas, com vários pontos de alimentação. Eles conhecem esses pontos, que são aglomerações de plantas floridas e as visitam em intervalos regulares.

Embora não tenha um bico curvado como Phaethornis sp. ou Glaucis hirsutus, o beija-flor Florisuga fusca pode executar malabarismos e conseguir se alimentar nas flores da Heliconia rostrata. Talvez esse tipo de flor não seja a sua primeira escolha, mas o mundo natural é assim mesmo. Desafios surgem a todo momento e aqueles que melhor se adaptam, tem mais chances de sobreviver.

No ambiente de um jardim, cenas como esta não são raras, pois várias espécies de beija-flores estarão em contato com muitas espécies de plantas. Os beija-flores também aprendem a procurar flores por imitação. Numa situação hipotética, se um beija-flor de bico curto e reto observar outro beija-flor de bico curvo e longo alimentando-se seguidamente em flores como as de Heliconias, é provável que ele venha imitar este comportamento. 

É assim que os beija-flores aprendem a frequentar bebedouros de água açucarada. Nos primeiros dias apenas um ou dois  beija-flores aparecem. Em mais alguns dias serão vários e se a região

for propícia, aumentarão cada vez mais.

 

 

 

 

Veja  bebedouros

Ramphodon naevius (macho) e as flores  da Aloe barbadensis (Asphodelaceae), muito cultivada em todo o Brasil.

 

Este beija-flor que vive nas áreas litorâneas de muitos estados brasileiros, possui um bico com uma singularidade digna de nota. No macho, a ponta do bico possui uma curvatura acentuada que se parece com um gancho. Um pouco atrás, tanto a mandíbula como maxila possuem um serrilhado que se assemelha com “dentes” e que se encaixam com o bico fechado. Veja este detalhe na figura abaixo.

Acredita-se, nos meios científicos, que esse beija-flor muito se assemelharia em características a um hipotético beija-flor “ancestral”, aquele que estaria no início da cadeia evolucionária dessas aves e o gancho e “dentes” seriam resquícios evolucionários. Já observei esta espécie apanhando insetos capturados em teias de aranha ou retirando-os das frestas de madeira de uma parede. Nesse último caso, o formato do bico parece proporcionar uma vantagem adicional e o serrilhado certamente prende melhor os insetos capturados. 

Imagem acima de autoria do amigo

Sérgio Gregório da Silva

Heliomaster squamosus (machos) usam seus bicos retos e longos em flores bem diferentes, Anemopaegma citrinum (Bignoniaceae) à esquerda, nativa da Mata Atlântica e Holmskoldia áurea (Lamiaceae) à direita, planta exótica de origem Asiática.

Para este beija-flor andino (Ensifera ensifera) a evolução o habilitou a buscar néctar nas flores de corolas muito longas, como Passiflora mixta (Passifloraceae). A planta tem nesta espécie de beija-flor o seu único polinizador que por sua vez, tem acesso à uma reserva exclusiva de néctar