Atraindo e mantendo beija-flores

Beija-flores Florisuga fusca (acima) e Glaucis hirsutus (abaixo), alimentando-se em bebedouro com água açucarada.

   

 Se você estiver interessado em ter beija-flores em seu jardim, escolha plantas cujas flores os atraiam e plante-as em todos os lugares possíveis, mesmo que seja em vasos. Se não aparecerem beija-flores logo, complemente com a alimentação artificial.

     

 Há certa crença generalizada de que bebedouros com água açucarada “viciam” os beija-flores, tornando-os dependentes e que, por isso, eles deixariam de procurar as flores. O que acontece é que se você colocar um desses bebedouros, a população dessas aves aumentará em torno dele, por ser uma fonte fácil de carboidratos. Os beija-flores não estarão “viciados” e sim, aproveitando a oportunidade. Sem essa fonte, os beija-flores estariam mais distribuídos à procura de alimento ou migrando e, portanto, fora de vista. A concentração deles, por outro lado, pode sim, lhes acarretar problemas, o que estaremos mencionando à medida que o texto segue.

   

 Existem vários fatores que afetam a população de beija-flores em uma determinada área, dentre eles: períodos de chuvas fortes que danificam muitas flores; má administração dos recursos florais por pessoas que possuem jardins ou fazem a manutenção deles; maior ou menor oferta de néctar nas flores, dependendo do horário durante o dia. Para proporcionar certa estabilidade à população dessas aves no jardim, a utilização de bebedouros com água açucarada é talvez a única alternativa que se apresenta.

   

 São contadas mais histórias de fracassos do que de sucessos nessa prática, então vamos entender as necessidades dessas aves e tentar melhorar a taxa de acertos.  A mistura de água com açúcar deve estar na proporção de 20% de açúcar e é indiferente para as aves que o açúcar seja do tipo cristal ou mais refinado. Em outras palavras, para uma parte de açúcar, usam-se mais quatro partes iguais de água. Assim, o líquido ficará com um teor de açúcar muito parecido com o néctar das flores preferidas deles, que varia entre 15 a 25%. Uma mistura muito mais concentrada pode prejudicar o seu metabolismo e uma mistura fraca demais não será atrativa, pois o gasto de energia para se alimentar não compensará o que as aves obtêm com o alimento. Insisto que se trata de uma complementação da alimentação, mas se você quer uma grande quantidade de beija-flores no seu jardim, essa é a solução mais rápida. 

     Existem preparados à venda que alegam serem apropriados para consumo dessas aves, mas como não encontrei pesquisas que garantam a segurança do seu uso para os beija-flores, prefiro não usar. Talvez alguns desses preparados sejam de boa qualidade e seguros, mas são sempre muito mais caros que açúcar comum. Entidades preservacionistas internacionais, tais como The Hummingbird Society dos EUA, uma das mais conceituadas, também não recomendam o uso desses produtos. Recomendam somente água com açúcar a 20%. Os corantes vermelhos usados em alguns desses produtos são muito mais apelativos aos nossos olhos do que seguros para o consumo dos beija-flores. Um bebedouro vermelho pode ser atrativo às aves, que associam essa cor às das flores, mas a cor deve ser no material do qual é feito e não no líquido que alimenta as aves. Não existe “néctar vermelho” na natureza, então por que submeter os beija-flores a isso? Açúcares extraídos de cana ou de beterraba já foram muito pesquisados e sua utilização é mais segura. Leia mais no link que segue (usar tradutor)

http://fieldguidetohummingbirds.com/hummingbirds/feeding-hummingbirds-dangers-red-dye/

      Temos informações a favor e contra a prática de alimentar beija-flores com água açucarada, mas vamos recorrer ao bom senso e isolar os mitos da realidade. Se o açúcar não os prejudica, a falta de higiene nos bebedouros com certeza o faz. Um indicador de que o líquido açucarado já não está bom para os beija-flores é a perda da sua transparência, o que acontece rapidamente de um dia para outro. A água açucarada fermenta rapidamente e os fungos e as bactérias que ali proliferam acabarão por prejudicar as aves, podendo levá-las à morte. Os próprios beija-flores carregam nos bicos pólen e insetos, que introduzidos nos bebedouros juntamente com a sua saliva, contribuem para a fermentação. Se estiver fazendo calor, redobre a atenção, já que a fermentação ocorre mais rapidamente do que em dias frios. Então, lavar bem os bebedouros é uma tarefa diária obrigatória. Pode-se usar sabão ou detergente doméstico com uma escova dental, porém o uso de álcool foi com que melhor me adaptei. Como solvente que é, além de limpar muito bem os resíduos nos bebedouros, é facilmente eliminado com pouca água e deixa tudo perfeitamente limpo. Água sanitária também pode ser usada para desinfecção das partes dos utensílios.

     Jamais complete a água açucarada, quando o reservatório estiver com o nível baixo. Lave-o bem e coloque nova mistura. Uma possível contaminação passada ao bebedouro por uma ave doente pode espalhar-se rapidamente por toda a população de aves. Lembre-se que na natureza, os beija-flores não estariam tão concentrados como no seu jardim. Se você não consegue seguir essas regras, apenas plante flores. 

 

     No entanto, se optar por usar bebedouros, seja responsável. Se resolver desistir depois de algum tempo, faça-o aos poucos e nunca de uma só vez. Diminua gradativamente a porcentagem de açúcar fazendo com que a mistura não seja mais tão atraente. A súbita interrupção de uma fonte de alimento fácil pode levar as aves à morte por inanição, uma vez que nem todas conseguirão encontrar uma nova fonte de alimento em curto espaço de tempo. As espécies sedentárias (que não migram) serão as mais prejudicadas. As migratórias procuram rapidamente outras paragens e têm mais chances de sobreviver. Essas espécies, mesmo com farta alimentação disponível, ficam no máximo 3 ou 4 meses no local, engordam nesse período e depois partem. O instinto de migrar é mais forte do que a conveniência de alimentação farta.

     Os filhotes se beneficiam muito quando existem esses bebedouros nas imediações do ninho. A mãe pode dispor de mais tempo caçando insetos (proteínas), já que os bebedouros garantem uma fonte regular de carboidratos. Na dieta de um beija-flor adulto, as proteínas representam 5% do total de alimento ingerido. A dieta dos filhotes pode conter até 18% de proteínas. Então, pense no gasto de energia necessário para caçar a quantidade de insetos e colher néctar que alimenta a mãe e a mais dois filhotes.

Nunca use mel de abelhas, adoçantes ou xarope de “groselha” nos bebedouros, pois é prejudicial ao seu metabolismo. Beija-flores geralmente rejeitam uma mistura contendo esses ingredientes, mas se estiverem muito privados de alimento poderão fazer uma exceção intoxicando-se.

     No jardim, observamos que os beija-flores preferem as flores pela manhã, e fazem poucas visitas aos bebedouros nesse período, apesar de estarem abastecidos. No final da tarde, eles invertem a preferência e procuram mais os bebedouros, talvez pela pouca oferta de néctar nas flores e porque passarão a noite toda sem se alimentar. Uma fonte abundante de calorias os ajuda resistir ao período noturno, quando passarão horas sem ingerir alimento. Após se fartarem, vão sumindo aos poucos com os últimos raios de luz.

Vale mencionar que em 2005, no sul dos EUA, depois da passagem do furacão “Katrina”, nos estados mais atingidos pelo desastre, a vegetação ficou tão danificada que os beija-flores sobreviventes ficaram subitamente sem alimento por uma vasta área geográfica, estando condenados a morrer de fome. Voluntários e entidades de preservação ambiental fizeram esforços conjuntos para alimentá-los e isso foi feito com bebedouros contendo água açucarada. Alguns fabricantes desses bebedouros fizeram sua parte, doando seus produtos às entidades preservacionistas.

Sim, podemos criar oásis nos desertos que criamos.